sábado, 5 de janeiro de 2013

CAPÍTULO I - A PARTIR


           Enquanto fitava a grama verde do jardim numa tarde de domingo, Caio se deu conta de que mesmo se aquele instante fosse congelado para todo o sempre, ainda assim suas duvidas ecoariam sem fim. Entretanto, não eram os pensamentos dúbios que o prendiam ali, no quintal de sua confortável casa conquistada, sobretudo, com a ousadia que tivera nas decisões em determinada época de sua vida.
           Seus últimos meses foram incomuns o bastante para se direcionar pela certeza. De fato, certeza nunca foi o que mais lhe motivou, nem tampouco a responsável pelos seus passos mais importantes ou por suas maiores conquistas. Naquele momento, sozinho ao lado de todos os dispositivos tecnológicos e de comunicação, ao lado daquilo que em muito tempo fora sua maior companhia, tinha para si que o que o momento exigia não era pensar, avaliar e analisar. Agora, Caio sabia que precisava apenas fazer. Não podia, naquele instante, se dar ao luxo de exercer a razão, e isso não lhe era inédito. 
         Não sabia quanto tempo havia ficado ali, sentado em sua cadeira em meio à bagunça deixada pela festa da noite anterior. Ele, que detestava cigarros, havia consumido quase uma dezena deles enquanto toda a sua vida passeava pelos seus pensamentos. Velhos amigos da infância, brinquedos pelos quais teve apego quando criança, lugares em que havia morado, desavenças e reconciliações que tivera com sua família, antigas paixões e tudo aquilo que de certa forma havia marcado suas lembranças corriam pelos seus olhos com uma sensação de que tudo era novo, como se estivessem sendo vivenciados pela primeira vez, pelo menos naquele instante.
Caio estava prestes a tomar um caminho sem volta. Durante toda a sua vida sentira o chamado de seus impulsos para partir, mas sempre lhe faltava coragem. Diversas vezes foi seduzido pelo recomeço, pelo inesperado e por deixar tudo que havia construído e descontruído para trás. Para ele, soava como uma descabida possibilidade de redenção, de destituir-se das responsabilidades em que havia se metido para se prestar aos vislumbres que a nova vida poderia lhe oferecer, longe de tudo e de todos. Agora estava ali, a um passo de se render aos impulsos pela primeira vez. Sempre teve medo e receio por tudo o que poderia ser deixado, e os homens, quando sentem que tem algo a perder são facilmente desarmados pelo medo e frequentemente despidos de suas ideias audaciosas. Mas dessa vez ele não tinha muito que temer.
Agora era diferente, e, para Caio, essa era uma sensação rara, daquelas que não acometem um indivíduo sem um propósito. Não era triste e nem alegre, entretanto tais momentos incitavam resistência, clamavam pela permanência de sua rotina incerta, calculada pelos desajustes de um mundo muito planejado para ele. Não obstante, por mais força que essa resistência possuísse ela não seria forte o bastante para conter a torrente da impulsividade que naquele momento sentia transbordar.
Ali, sentado na varanda, desorientado no tempo, sentia-se ultrajado por lapsos de incerteza, embora não passassem de brisas ao muro. Por mais que sua decisão fosse audaz o bastante para deixar quase tudo para trás, Caio não se considerava incauto. Acreditava que o desfecho de uma vida não deveria ser monitorado pelos ponteiros do relógio, pelos dias do calendário, e muito menos pelos altos e baixos de uma máquina qualquer num hospital, afinal, um coração que dói e ainda assim não pára não tem prazo de validade bem definido.
Entretanto, a dor e a angustia daqueles que lhe eram caros poderia ser confortada com momentos alegres, como havia sido na festa do dia anterior com os amigos, regada a muita bebida e insensatez. Ou com uma visita inesperada que fizera aos pais para mais uma vez admirá-los e para relembrar dos incansáveis momentos em que, a despeito de todas as adversidades, sacrificaram-se incansavelmente para torná-lo o que era hoje. Ou ainda por uma noite inteira ao lado daquela que, para ele, durante anos a fio representava o mais belo significado da vida condensado e cativo na forma de uma extraordinária mulher. Há três dias, havia passado o que seria a sua ultima noite ao lado de sua noiva Fernanda, despertos por sexo, carícias, olhares recíprocos repletos de teor que dispensam palavras, e pela sensação provocada pelo terno abraço e pelo envolver de seus corpos, de que o mundo, para os dois, não precisa de mais nada.
Começava a anoitecer quando Caio reagiu ao estado semi-hipnótico ao qual se encontrava. Era hora de varrer a sujeira e de organizar a bagunça. Enquanto limpava a imundice explícita deixada pelos convidados em seu quintal, lembrou-se de momentos complicados, de erros que havia cometido e que afetaram pessoas que em outros momentos havia levado em alta conta, mas que suas participações no palco da vida foram encerradas pela lógica da ordem natural das coisas. Quando era mais jovem, tinha enorme dificuldade em se perdoar por tais erros, mas à medida que envelhecia percebia que isso não era nada além de algumas condições de estar vivo e de participar da desafiante dinâmica que as turvas curvas do destino nos submetem, e, por fim, foi capaz de superar o conflito. Outros erros, porém, que haviam sido cometidos com uma parcela de consentimento o atormentavam mais, e enquanto jogava água no chão para livrá-lo dos restos fétidos, relembrava cada um destes tristes episódios. Sentia-se assaltado por um sentimento de vergonha e pequenez. Com frequência pensava na possibilidade fictícia de voltar no tempo, e do que poderia fazer para evitar que todos aqueles fatos se repetissem. Entretanto, tinha a impressão de que o preço seria alto e de que deixaria de passar por muitas das inspiradoras experiências que havia vivenciado.
Caio possuía o hábito de reavaliar os árduos acontecimentos de outrora, e conseguia obter algum sucesso, não no sentido de reparar tudo de incerto que fizera, mas de evadir-se de muitas situações que causariam algum tipo de aborrecimento para as pessoas e para si, no presente ou no futuro próximo. Talvez seja esse um dos grandes motivos por ter desenvolvido um temperamento tão incomum que às vezes impressionava as pessoas, afinal, quem garante que a maneira estável e politicamente correta de se viver proporciona mais acertos do que erros? Para ele, era evidente que a coisa funcionava exatamente ao contrário. Em um mundo onde a ignorância muitas vezes nos leva à beatitude, aqueles que são atormentados por um juízo um pouco menos logrado precisam, de alguma forma, encontrar outra saída para estarem em paz não apenas com os outros, mas, na maioria das vezes, consigo.
Depois de algumas horas de árduo trabalho, Caio finalmente deixou sua morada totalmente limpa. O chão brilhava e os cômodos da casa apresentavam organização e ordem que nem ele próprio possuía. Gostaria que sua casa estivesse resplandecente, magistralmente asseada e bela, brilhante para o regresso de Fernanda.  Desejava que o lar – que de agora em diante pertenceria a uma única pessoa – refletisse da forma mais fiel possível tudo aquilo que sua companheira havia sido para ele. Por esse motivo se empenhou tanto em sua tarefa. 
Agora que via a casa tão limpa e cheirosa, dominada pela ordem que o deixava timidamente desconfortável, não conseguia parar de pensar em sua noiva. Como poderia ter se apaixonado tanto, se envolvido tão fervorosamente com alguém tão diferente dele? Esta foi, para Caio, uma das maiores e mais maravilhosas surpresas que a vida reservara. Não que as diferenças haviam facilitado o entendimento e a aproximação dos dois. De fato, isso nunca aconteceu, mas a pura vontade de estarem juntos, de construírem uma vida a dois ao passar do tempo e ao superar das dificuldades iniciais superava todo o tipo de trama que arriscava a se colocar entre os dois. A forma tão distinta que possuíam de encarar a vida jamais obedecera às leis da atração e tampouco os repelia. Por vezes, chegava a ser engraçado o modo como se desentendiam e voltavam a se entender.  Precisavam recorrer às mais rebuscadas formas de expressarem seus sentimentos e intenções, quando a compreensão necessária não exigia nada fora do comum. Os amigos – tanto de Caio como de Fernanda – nunca os entendiam perfeitamente, e os consideravam um casal a parte, do que, obviamente, ambos discordavam.
Já passava de meia noite quando resolveu dormir. Ao se deitar, foi dominado pelo súbito sentimento de nostalgia. Aquela seria a sua última noite naquela cama, naquela casa. Ao acordar, pegaria seus pertences há dias já separados e partiria para não mais voltar. Estava pouco preparado, sentia as pernas rijas e o coração doer só de pensar, mas precisava ser forte uma última vez. Estava certo de que, ao acordar, os ventos da manhã trariam como sopro a coragem necessária para resignar-se de tudo aquilo que havia constituído. De tudo aquilo que era parte de si e da sua história. Um pedaço dele certamente ficaria ali, naquela casa, nas pessoas que nela um dia adentraram. Mais uma vez, e não pela última, lembrou-se de como havia chegado até ali, até aquele momento. Lembrou-se dos amigos, da família, e, especialmente de Fernanda. Seria realmente melhor assim? Preocupou-se pouco com a resposta. Antes de se deitar, desejou ter como companhia suas músicas preferidas, aquelas que lhe marcavam de algum modo, por algum motivo. Selecionou todas as que conseguiu se lembrar sem fazer muito esforço para ouvir enquanto embalava no sono. Tinha certeza de que sentiria falta delas. Incontáveis vezes adormeceu ao som de suas músicas, e soavam como um remédio para os ouvidos e para a alma.  Este era mais um dos hábitos do qual se despediria esta noite.
Muitas lembranças ainda o atormentaram e algumas vezes as músicas se repetiram antes de pegar no sono. Quando acordou, elas ainda tocavam, e as lembranças não teriam o abandonado totalmente. Teve sonhos ininteligíveis, mas nada incomum. Ao dar os primeiros passos, ainda tropeçava em sua decisão. Definitivamente era a escolha mais difícil que havia tomado e só não a abandonava porque arquitetá-la foi um trabalho de meses. Ou talvez porque de fato os ventos matinais realmente haviam lhe trazido a coragem necessária para seguir adiante. Caio tomou seu café, se trocou, e, antes de partir, corrigiu a pequena bagunça que tinha feito. Muniu-se de toda a sua convicção, deu longa olhada para a casa. Reparou em cada detalhe na sala que antecedia a fachada. Respirou profunda e demoradamente, virou-se e saiu aos passos. Os mais pesados de sua vida. Deixou a casa limpa, brilhante, organizada e perfumada. Jamais voltaria a pisar ali.


Revisão: Sasha Garcia




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